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Pedrinho Mattar

Pedrinho Mattar, o virtuose popular

Em uma época em que a música instrumental gozava de grande popularidade, muitos foram os pianistas que escreveram seus nomes na história brasileira, mas nenhum angariou tantos fãs e admiradores quanto Pedrinho Mattar.

Pedrinho Mattar - 1982

Nascido em São Paulo em 19 de agosto de 1936, Pedro Mattar era o caçula de dez irmãos, filhos de pais libaneses. As irmãs faziam aulas de piano com uma professora particular e o pequeno Pedrinho, com oito anos de idade, ia até o instrumento e tentava reproduzir o que ouvia. Com a ajuda das irmãs e contando com ouvido privilegiado, logo começou a tocar as primeiras músicas.

Na adolescência, escondido do pai, tocava em inferninhos com o conjunto Os anjos do Inferno, que tinha o baiano João Gilberto como um dos componentes. A carreira profissional se iniciou em 1953, com Pedrinho acompanhando cantores em festivais realizados na União Cultural Brasil-Estados Unidos de São Paulo, onde estudava.

Em 1959, realizou sua primeira excursão ao exterior acompanhando a cantora Leny Eversong a Las Vegas e Nova York. Saiu, no ano seguinte, em turnê com o cantor Agostinho dos Santos em shows realizados pelo cantor no Uruguai e na Argentina. Ainda nesse ano, conheceu Claudette Soares, com quem se apresentou em casas noturnas durante dez anos.

Nesse período, participou de shows de bossa nova no Rio de Janeiro e foi atração da boate Juão Sebastião Bar como acompanhante de Chico Buarque, Marisa Gata Mansa e outros artistas de grande popularidade na época. “O fato de aparecer junto a grandes estrelas e astros, além de me enriquecer musicalmente, deu um grande impulso à minha carreira”, confessava.

Pedrinho Mattar - 1982 - apresentação

Rapidamente o estilo “floreado” do pianista começou a chamar a atenção de produtores e os convites começaram a chegar: Mattar foi o responsável pela produção musical do programa televisivo de Bibi Ferreira, solando e acompanhando convidados e chegou a ter seu próprio programa na TV Excelsior, chamado “Boa tarde, gente”.

Começou os estudos de piano clássico somente em 1962, na escola de Magdalena Tagliaferro, com a professora Helena Plaut. “Sou um pianista de formação erudita, mas sempre tive o dom da música popular”, costumava dizer. “Jamais tocaria da maneira como toco se não tivesse o estudo da parte técnica.”

No mesmo ano, acompanhou Maysa em apresentações realizadas pela cantora em Portugal e Espanha. A partir de então, lançou uma sequência de três LPS com o Pedrinho Mattar Trio. Tocando na noite e em eventos particulares, foi figura importante na valorização do trabalho do músico, frequentando e embalando as noites da alta sociedade paulistana.

Em 1971, mudou-se para o Rio de Janeiro, estabelecendo por lá o mesmo padrão que o fez famoso em São Paulo. Trabalhou no teatro – em peças como “Fica combinado assim” (1971) e “Misto quente” (1972) – e gravou o LP “Um show de Mattar”. Acompanhou Cauby Peixoto pela Argentina e Raul Solnado pela Venezuela, além de Luís Carlos Miele e Sandra Bréa no espetáculo Caso Water-Closed.

O estilo exuberante não ficava restrito às execuções musicais: em 1979, Pedrinho Mattar apresentou-se nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, atraindo uma multidão de ouvintes. No ano seguinte, apresentou-se para o presidente Jimmy Carter e sua esposa na Casa Branca.

Dividia seu tempo entre apresentações em casas noturnas, shows no exterior e a apresentação de programas. “Eu atendo pedidos”, dizia o pianista, “criei um cardápio musical das cozinhas brasileira, americana, italiana, francesa e as sugestões do chefe. Vou de “As Time Goes By” a “Eu Sei Que Vou Te Amar”, passando por tangos e boleros”. Sua presença na televisão, por sinal, era constante, tanto ancorando programas em que seu piano era o destaque quanto sendo convidado a participar e enriquecer a trilha sonora da atração.

De volta a São Paulo, Mattar encarnava o estilo elegante, se apresentando sempre de smoking – de uma cor a cada entrada -, impecável na execução de seu amplo repertório, que tinha como um dos destaques a versão em chorinho de “Pour Elise”, de Beethoven.

Em 1993, o edifício onde o pianista morava, o Baronesa de Arary, na avenida Paulista, foi condenado pelo Corpo de Bombeiros de São Paulo por falta de segurança e de manutenção da rede elétrica. Pedrinho Mattar se mudou, então, para sua casa no Embaré, em Santos. Mas, para resgatar seu piano de cauda, mandou derrubar a parede da sala de visitas que dava para a avenida e desceu o instrumento com cordas e roldanas, operação que, literalmente, parou a avenida por conta do alvoroço e da grande curiosidade.

Pedrinho Mattar morreu em Santos no dia 7 de fevereiro de 2007, aos 70 anos, vítima de um infarto fulminante. O corpo foi levado para a capital paulista e sepultado no Cemitério do Araçá. Na época, ele apresentava o programa Pianíssimo na Rede Vida de Televisão.

O estilo Pedrinho Mattar

Pedrinho Mattar

Lançando mão de sua técnica perfeita, Pedrinho Mattar tinha como principal característica seu estilo exuberante, em que os arranjos eram ornamentados com uma infinidade de arpejos, escalas, sobreposições e notas extras. A sonoridade carregada, sem espaço para pausas ou harmonias estáticas, chamava a atenção do público e deleitava os amantes de grandes demonstrações virtuosísticas.

Seu estilo inspirava centenas de imitadores que, sem o talento natural de Mattar, se valiam de cópias e transcrições de seus arranjos. O pianista tanto se irritava com isso que ameaçava, inclusive, mover ações judiciais contra os “plagiadores que nada lhe pagavam”. Era comum, inclusive, que, durante seus programas de televisão, Mattar cobrisse discretamente as partituras com as mãos, para que não fossem copiadas. No entanto, quando se deparava com um telespectador verdadeiramente apaixonado por seus arranjos, lhe enviava uma partitura autografada, sem nada cobrar.

Mattar acabou por lançar o livro A Arte do Piano Popular, O Melhor de Pedrinho Mattar, em que publicou alguns de seus arranjos mais famosos, como “Brasileirinho”, “Luiza”, “Odeon”, “Tico-tico no fubá” e “Dizzy fingers”, entre outros.

Com a falta de interesse pela música instrumental e o sucesso de outros gêneros mais populares, aos poucos a presença do pianista se tornou mais rara e seu estilo extravagante foi tachado de “kitsch” e “brega”. Mesmo assim, sempre foi admirado pelo público que cativou, se tornando sinônimo de elegância e virtuosismo, o mais popular dos virtuoses brasileiros.



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