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Francisco Mignone, o Chico Bororó

Regente, pianista e professor, Francisco Mignone é considerado um dos três maiores compositores brasileiros, ao lado de Villa-Lobos e Lorenzo Fernandez. Compôs cerca de 700 peças abordando os gêneros orquestral, instrumental, camerístico, dramático e sacro. Sua obra é caracterizada por um profundo sentido melódico e a rítmica precisa.

Filho do flautista e regente italiano Alferio Mignone, que imigrou para o Brasil em 1896, Francisco de Paula Mignone nasceu na cidade de São Paulo em 3 de setembro de 1897. Iniciou seus estudos musicais com o pai e aos 10 anos passou a se dedicar ao piano, tendo aulas com Silvio Motto. Já aos 13, passou a atuar como flautista e pianista condutor em orquestras de cinema, integrando também grupos de choro. Aos 15, ingressou no Conservatório Dramático Musical de São Paulo, onde se formou cinco anos mais tarde em flauta, piano e composição, tendo sido aluno de Savino de Benedictis (harmonia) e Agostino Cantu (harmonia, composição e contraponto). Ao longo do curso, exibiu-se frequentemente como solista ao piano. Mignone trabalhou nas orquestras de baile até os 22 anos. Nesse período, escreveu muita música popular, adotando o pseudônimo de Chico Bororó, já que, à época, a música “popular” e a música “erudita” não se misturavam. Em 1918, apresentou suas primeiras obras sinfônicas, cujo êxito lhe rendeu a bolsa de estudos com a qual, em 1920, partiu para a Europa, onde permaneceu por nove anos.

Em Milão, estudou composição com Vincenzo Ferroni (1858 – 1934), ex-aluno do compositor francês Jules Massenet (1842 – 1912) no Conservatório de Paris, que o introduziu nas técnicas composicionais francesas bem como na tradição operística italiana. Com orientação do mestre italiano, compôs a ópera em três atos “O Contratador de Diamantes”, cujo libreto, de Gerolamo Bottoni, inspira-se no drama homônimo de Afonso Arinos.  A estreia aconteceu no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1924, sendo muito bem-recebida pelo público e pela crítica, especialmente a cena que mostrava uma congada. Isso o encorajou a escrever sua segunda ópera, “L’Innocente”, concluída em 1927 e apresentada no Brasil no ano seguinte. Entre 1927 e 1928, realizou andanças pela Espanha, cujas sonoridades lhe inspiraram algumas composições, como “Suíte Asturiana”.

De volta a São Paulo, em 1929, tornou-se professor no Conservatório onde havia se formado, sendo friamente recebido por Mário de Andrade, seu colega quando jovem, por conta das fortes influências italianas de suas obras. A reaproximação resultou numa amizade duradoura e na aceitação por parte do compositor de alguns postulados nacionalistas musicais propostos por Mário. Foi assim que Mignone passou a buscar inspiração nas raízes brasileiras. Nesta nova fase, compôs a “Primeira” e a “Segunda fantasia brasileira” (para piano e orquestra), “Festas de Igrejas” (poema sinfônico) e a série das “12 Valsas de Esquina” (cada uma composta sobre um dos 12 tons menores).

Em 1932, casou-se com Liddy, filha do professor de piano Luigi Chiaffarelli. No fim desse ano, mudou-se para o Rio de Janeiro e passou a lecionar no Instituto Nacional de Música. Ali desenvolveu importante carreira docente, formando regentes e compositores que se destacam no meio musical brasileiro, como Roberto Duarte e Ricardo Tacuchian. Em 1951, assumiu a direção do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e, em 1965, integrou a Academia Brasileira de Música, que presidiu entre 1980 e 1985.

Na década de 1950, escreveu para o cinema, compondo as trilhas de “Caiçara” e “Menina Moça”, filmes de Alberto Cavalcanti. Em 1959, recebeu o Prêmio Saci de melhor composição por “Sob o Céu da Bahia”, de Ernesto Remani.

Em 1963, um ano após a morte de Liddy, casou-se com a pianista paraense Maria Josephina, com quem desenvolveu frutífera parceria em recitais a quatro mãos, incluindo um duo pianístico sobre a obra de Ernesto Nazareth, lançado em 1978. Seguiu atuando como regente e pianista até pouco antes de sua morte, em 19 de fevereiro de 1986, aos 88 anos, no Rio de Janeiro.

A obra de Francisco Mignone

O piano foi o instrumento preferido de Francisco Mignone. Instrumentista de talento, poderia ter sido um dos grandes virtuoses brasileiros se a composição não o tivesse atraído. Grande parte de sua produção é dedicada ao piano. Sonatas e Sonatinas a partir de 1941, seis “Prelúdios” (1932), seis “Estudos Transcendentais” (1931), “12 Valsas de Esquina”, “Valsas Brasileiras”, “Valsas-Choro” e uma quantidade de outras peças extremamente populares no repertório dos conservatórios brasileiros.

O nome Chico Bororó consta de partituras e gravações lançadas entre 1912 e 1931, de peças como o samba burlesco “Ahi! Pirata!”, gravado por Francisco Alves, o Rei da Voz. A canção fez sucesso no Carnaval e trouxe notoriedade a seu autor. “Divulgar esse tipo de música não convinha a moços de família. Daí o pseudônimo!”, afirma Maria Josephina Mignone, viúva do maestro. A pianista, aos 96 anos, acaba de realizar uma proeza: gravou a obra integral de Chico Bororó ao piano e acompanhada da soprano Nati Szpilman. O resultado é o álbum duplo “Chico Bororó – um jovem Mignone”.

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