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Debussy

Claude Debussy – o piano impressionista

O que produções hollywoodianas como Assim Caminha a Humanidade (1956), Onze Homens e um Segredo (2001), A Saga Crepúsculo: Eclipse (2010) e Uma Noite de Crime (2013) têm em comum? Você pode pensar em atores, diretores ou mesmo produtores. Mas, se juntarmos a essa lista novelas da TV brasileira, peças de teatro, comerciais de perfume e muitos outros filmes, rapidamente se percebe que a resposta só pode ser uma: a música. “Clair de Lune”, a mais conhecida composição do francês Claude Debussy, é o fator comum a todas essas produções. Facilmente reconhecível, com certo ar etéreo que reflete serenidade e perenidade e delicadas alterações de sonoridade, a obra para piano recebeu várias versões, incluindo uma para orquestra do próprio compositor.

Como acontece com a maioria das composições de Debussy, a impressão de uma paisagem é fundamental e o cenário de luz e sombra é descrito por sutis colorações na harmonia e no ritmo e pela fluidez da melodia e dos acompanhamentos. Tais características fizeram que sua obra fosse fortemente atrelada ao movimento artístico em voga na sua época, o impressionismo.

Biografia

Claude Debussy - o piano impressionista

Considerado um dos iniciadores da modernidade na arte ocidental, Achille-Claude Debussy nasceu em Saint-Germain-en-Laye, pequena cidade a aproximadamente 30 quilômetros de Paris, em 22 de agosto de 1862.

Era o primogênito de cinco filhos do casal Victorine Josephine Sophie Manoury e Manuel Achille Debussy, um comerciante de porcelanas. Após a falência dos negócios do patriarca, a família se mudou para a capital francesa. Em 1870, a mãe de Debussy, grávida, fugiu com Claude para a casa da tia paterna em Cannes para escapar da guerra franco-prussiana.

 Ali, aos sete anos de idade, ele iniciou nas aulas de piano com o violinista Jean Cerutti. Em 1871, passou a estudar com sua grande incentivadora, Madame Marie Mauté de Fleurville, exímia pianista, sogra do poeta Paul Verlaine, que afirmava ter sido aluna de Frédéric Chopin, embora não existam evidências de tal fato.

Por insistência dela, aos 11 anos Debussy passou a frequentar o Conservatório Superior de Paris, onde chamou a atenção de seus mestres. Estudou composição com Ernest Guiraud, história e teoria musical com Louis-Albert Bourgault-Ducoudray, harmonia com Émile Durand, piano com Antoine François Marmontel, órgão com César Franck e solfejo com Albert Lavignac. Ali se tornou amigo do colega e também pianista Isidor Philipp.

O talento de Debussy chegou aos ouvidos da milionária russa Nadezhda von Meck, conhecida por ser mecenas de Tchaikovsky e, em 1879, o jovem músico foi convidado por ela a integrar, como pianista, o trio musical que apadrinhava. É dessa época sua primeira composição, um Trio para piano, violino e violoncelo, e seu fascínio pelas óperas de Richard Wagner, paixão que mais tarde renegaria.

Durante os próximos três anos, acompanhou Nadezhda von Meck e sua família por toda a Europa, e suas atividades incluíam peças a quatro mãos com von Meck ao piano, aulas de música a seus filhos e concertos privados com alguns de seus amigos músicos.

Após essa turnê, voltou a Paris com o objetivo de estudar composição e concorrer ao Grande Prêmio de Música de Roma, considerado um dos mais importantes concursos da época. Como vencedor do prêmio, em 1884, com sua composição L’enfant prodigue, Debussy recebeu uma bolsa de estudos para a Académie des Beaux-Arts, que incluiu uma residência na Villa Medici, a Academia Francesa em Roma.

Claude Debussy

Voltou à França em 1887, entrando em contato com a vanguarda artística e literária da cidade, frequentando as reuniões semanais realizadas na casa do poeta simbolista Stéphane Mallarmé. No mesmo ano, iniciou uma relação com Gabrielle Dupont, filha de seu alfaiate, com quem viveu por quase dez anos, apesar de ser assíduo frequentador da noite parisiense.

Durante suas visitas a Bayreut, nos anos seguinte, Debussy teve contato com a ópera wagneriana, o que teria grande impacto em seu trabalho. Como muitos músicos da época, ele respondeu positivamente ao domínio da forma e às harmonias surpreendentes. Em 1889, na Exposition Universelle em Paris, Debussy ouviu pela primeira vez a música javanesa e, a partir de então, passou a incorporar escalas, melodias, ritmos e texturas orientais em algumas de suas composições.

Em outubro de 1899, o compositor se separou de Gabrielle para se casar com Marie-Rosalie (Lilly) Texier, uma costureira de Bichain, um povoado a 80 km ao sul de Paris. Quatro anos mais tarde, conheceu Emma Bardac, esposa de um banqueiro e ex-amante de Gabriel Fauré, iniciando com ela uma nova relação sentimental. Deixa, então, Lilly que, abalada pela separação, tenta se suicidar com um tiro no peito, mas sobrevive.

O caso provoca um escândalo e Debussy é duramente criticado por sua atitude, mesmo pelos amigos mais próximos. Apesar disso, conseguiu o divórcio e, em 1908, se casou com Emma, com quem teve uma filha, Claude-Emma, apelidada de Chouchou, a quem dedicou a suíte para piano Children’s Corner. No mesmo ano, escreveu sua mais famosa obra sinfônica, La Mer. No ano seguinte, foi diagnosticado com câncer. Debussy morreu em 25 de março de 1918, durante o bombardeio de Paris, na última ofensiva alemã da Primeira Guerra Mundial.

A obra de Claude Debussy

Monet

O Lago das Ninfeias, Claude Monet,
pintor impressionista do mesmo período de Debussy.

Debussy desenvolveu sua própria linguagem musical, estabelecendo um novo conceito de tonalidade na música europeia. Entre as características mais marcantes de sua obra estão as passagens brilhantes com ondas de ornamentos que encobrem a ausência ocasional de tonalidade. Também é frequente o uso de acordes paralelos, descritos por alguns escritores como harmonias não funcionais, e modulações não preparadas, além de bitonalidade e o emprego de escalas tonais e pentatônicas.

Debussy procurou explorar novas possibilidades musicais, tanto em termos de harmonia quanto de textura pianística, forma e, até mesmo, de notação musical, chegando a usar diferentes tamanhos para as notas de forma a indicar uma hierarquia. O compositor deu importância excepcional aos acordes isolados, aos timbres, às pausas e ao contraste entre as sonoridades.

Debussy é um dos mais importantes compositores da literatura para piano, instrumento que tocava extremamente bem e para o qual deixou um legado de grande dimensão, onde se destacam obras de caráter bem diversificado, com perceptível evolução no decorrer do tempo.

De sua juventude, destacam-se Danse Bohémienne (1880) e Deux Arabesques (1888, 1891), além da conhecida e apaixonante Reverie (1890) e a Suite Bergamasque (1890-1905), que lembra o estilo rococó – com certo cinismo moderno e perplexidade – e contém a popular “Clair de Lune”.

Os três Nocturnes (1899) incluem estudos característicos: em “Nuages”, harmonia e textura veladas; em “Fêtes”, exuberância; e em “Sirènes”, tons inteiros. A suíte Pour le piano (1894–1901), traz também algumas de suas obras mais conhecidas e interpretadas: “Prélude”, “Sarabande” e “Toccata”.

Seu primeiro volume de Images Pour Piano (1904-1905) combina inovação harmônica com sugestão poética: “Reflets dans l’eau” é uma descrição musical da água ondulante, enquanto “Hommage à Rameau” é lenta e nostálgica, tomando uma melodia de Jean-Philippe Rameau como inspiração.

Estampes (1903) oferece impressões de locais exóticos. “Pagodes” visa uma evocação das estruturas pentatônicas empregadas pela música javanesa e é o resultado diretamente inspirado do contato de Debussy com essa cultura.

Children’s Corner (1908) foi escrito para sua filha, Claude-Emma, a quem ele chamava de Chouchou. A suíte lembra o classicismo – a peça de abertura “Doctor Gradus ad Parnassum” refere-se à coleção de composições de piano instrutivo de Muzio Clementi. Na peça final da suíte, a popular “Golliwogg’s Cakewalk”, Debussy se diverte imitando os primeiros compassos do prelúdio de Wagner para Tristão e Isolda. Le petit Nègre (1909) é uma das mais acessíveis obras de Debussy, de fácil execução e carregada de referências do ragtime americano.

O primeiro livro de Préludes (1910), provou ser o trabalho mais bem-sucedido de Debussy para piano, frequentemente comparados aos de Chopin, mas sem a preocupação de explorar as 24 tonalidades possíveis do sistema tonal. Repletos de harmonias ricas, incomuns e ousadas, inclui “La fille aux cheveux de lin” e “La Cathédrale Engloutie”.

Como queria que as pessoas respondessem intuitivamente a essas peças, os títulos foram colocados no final de cada prelúdio, na esperança de que os ouvintes não fizessem imagens de estereótipos enquanto ouviam.

Seguiram-se La plus que lente (1910) e Préludes Livre 2 (1912–1913) com “Feux d’artifice”, entre outras peças, que apresenta Debussy no auge de sua vanguarda, utilizando harmonias dissonantes para evocar modos e imagens específicas. Sua última obra para piano, os dois volumes de Études (1915), interpretam variedades de estilo e textura como exercícios pianísticos.

Debussy é considerado um dos compositores mais influentes do século 20. Suas harmonias inovadoras tiveram reflexo nas obras de quase todos os outros grandes compositores que o sucederam, particularmente Maurice Ravel, Igor Stravinsky, Olivier Messiaen, Béla Bartók, Pierre Boulez, Heitor Villa-Lobos, Henri Dutilleux e George Gershwin, assim como a música minimalista de Steve Reich e Philip Glass e o compositor japonês Toru Takemitsu.

Também influenciou músicos de jazz como Duke Ellington, Bix Beiderbecke, Branford Marsalis e Steve Kuhn e teve impacto profundo em compositores de trilhas sonoras por evocar, com seu estilo colorido, uma linguagem emocional.

Continue acessando o nosso blog para ler mais sobre a história que rege o mundo do piano!



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